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Dois crimes em Sergipe nos anos 80: a elite sergipana se mata?

                                                                                                                                   por João Augusto Gama da Silva

O primeiro tiro foi forte e seco. De escopeta. A cabeça de Carlos Augusto tombou para frente caindo sobre o volante disparando a buzina. Ele tinha acabado de entrar no carro e ligado a ignição.

Era por volta das 7,30 da noite quando nós dois saímos do “Cacique Chá”. Seu carro estava do outro lado da rua, onde hoje funciona a Procuradoria Geral do Estado. O meu carro estava estacionado no mesmo lado do restaurante, isto é na Praça Olímpio Campos. Percebi quando um carro parado do mesmo lado do carro de Carlos Augusto deu partida. Havia três homens dentro. O carro estava exatamente na antiga sorveteria “Iara”.

Gritei avisando a Carlos Augusto que ouviu o meu grito. Foi tarde. Um dos criminosos deu o segundo tiro. Um tiro de revolver e o carro seguiu em velocidade em direção à Rua da Frente. Foi o “tiro de misericórdia”. Os freqüentadores do “Cacique” ouviram os dois disparos e correram para ver o que acontecera.

Neste momento passou uma caminhonete que parou e deu socorro levando a vítima para o Hospital São Lucas, na zona sul da cidade. Marcelo Déda e José Carlos de Almeida Filho, saídos do “Cacique”, ajudaram a colocar Carlos Augusto, deitado, na viatura e José Carlos, nosso amigo “ Zé Miséria”, foi ao lado de Carlos Augusto até o hospital, lá permanecendo até o resultado da cirurgia.

No hospital Carlos Augusto me pediu que chamasse Dr. José Augusto Barreto, médico conceituado e proprietário do hospital, para acompanhar todo o procedimento. Avisei a Teotonílio Mesquita, pai de Carlos Augusto e fui procurar Dr. José Augusto que estava em casa oferecendo um jantar a um casal de amigos. Muito gentil, o médico não demorou a chegar.

Realizada a operação Carlos Augusto logo teve de voltar ao centro cirúrgico para ser reoperado. Continuava com uma hemorragia na carótida. Desta vez deu certo. Foi providenciado um forte esquema de segurança para sua proteção. Sua família temia que o hospital fosse invadido por pistoleiros para terminarem o serviço. Os boatos eram muitos. O hospital em pouco tempo ficou cheio. Parentes, polícia, imprensa tornavam a circulação difícil. A presença da segurança atrapalhava a rotina do hospital.

Alguns dias depois da tentativa de homicídio, em companhia de minha mulher, fui ao Rio de Janeiro assistir a uma temporada do Balé Bolshoi que se apresentara no Teatro Municipal. Quando retornei encontrei uma convocação do delegado Gisélio Gonçalves para depor sobre o atentado. Eu era a única testemunha.

Na delegacia, nas imediações do Ceasa, encontrei Gisélio que, depois do meu depoimento, onde informei que não sabia a quem atribuir o crime, me disse que “Carlos Augusto Barreto Mesquita iria morrer pelas mãos das pessoas encarregadas de sua segurança”. Sugeriu que eu o avisasse, mas sem envolver seu nome.

Preocupado, fui ao “Cacique” e conversei com Antonio Góis, então juiz de direito que achou que deveríamos conversar com Carlos Augusto em sua casa, aonde convalescia. Fomos imediatamente.

Lá, surgiu uma oportunidade e eu lhe relatei a conversa com o delegado. Na mesma noite, despistando sua própria segurança ele foi para São Paulo, onde ficou um longo período.

Em junho de 1988, antes do atentado a Carlos Augusto, aconteceu o crime do empresário e usineiro Fernando Luiz de Melo Barreto, assassinado barbaramente na porta do escritório da Usina Santa Clara, na Rua de Siriri, em Aracaju. Típico crime de mando. Foi uma comoção na cidade pela violência do homicídio e pelas relações sociais da vítima e de sua família.

No Instituto Médico-Legal para onde seu cadáver foi levado reuniu-se uma multidão. O trânsito ficou complicado na Praça Tobias Barreto. O homicídio acontecera pela manhã. Cheguei às 2 horas da tarde. As especulações sobre a autoria intelectual do crime eram o assunto de todas as rodas formadas na Praça. Começava o convencimento da sociedade de que Carlos Augusto matara Fernando Barreto pelo controle societário da Usina Santa Clara. A interminável briga de família. Ódios atávicos.

Conheci Fernando Barreto no início da década de 80, quando fiz uma incursão na advocacia, como sócio de Jaime Araújo e Valdemar Bastos Cunha. Como seu advogado, fui a algumas audiências na cidade de Japaratuba, em processos substituindo Jaime que se encontrava no Rio de Janeiro, trabalhando na Confederação Nacional das Indústrias. Os processos eram sempre de litígio de terras. Tinha uma boa impressão de Fernando. Vivido e experiente era uma excelente contador de histórias. Uma companhia agradável.

Fernando Barreto era tio de Carlos Augusto. Ambos pertenciam a elite sergipana. Tinham a mesma raiz. O primeiro, Fernando, era filho de Ariovaldo Barreto, usineiro rico, dono de muitas terras no estado e da usina de açúcar Santa Clara, no município de Capela. A fina flor da “aristocracia criola”. Reacionário, ligado ao agronegócio, Ariovaldo Barreto sempre militou politicamente com os setores mais retrógrados do estado. O segundo, Carlos Augusto Barreto Mesquita, era seu neto, filho de uma de suas filhas.

Empresário bem sucedido. Com o falecimento de Ariovaldo Barreto, surgiu uma forte disputa judicial pelo espólio, entre os seus herdeiros. A família cindida. Algum tempo depois do crime de Fernando Barreto, a justiça sergipana decretou a prisão preventiva de Carlos Augusto como mandante do crime.

Carlos Augusto fugiu para fora do estado evitando sua detenção. Dois anos depois conseguiu um Habeas Corpus em Brasília. Retornou à Aracaju no final dos anos 90, aonde veio a falecer de causas naturais, na primeira década do século XXI. Os dois crimes que em diversos momentos se entrelaçam, jamais foram solucionados.

[publicado em https://www.facebook.com/joao.gama.5015/posts/879416878783333]

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